Archive for the ‘Sem-categoria’ Category

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Das coisas e lugares

agosto 19, 2013

O que acontece com todas as coisas e lugar?
Deveriam ser coisas ou lugar?
São tantas coisas que não se tem mais lugar.
Mas onde ficam as coisas?
No lugar!
Em cima ou embaixo das coisas?
Lugar vazio e cheio de coisas,
bagunça, coisa, lograr
epousando tranquilo em todo lugar das coisas um lugar e em todo lugar, coisas.

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Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Disseram que o lugar que ia era longe, longe de que?

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Disseram que onde ele queria ir ficava do outro lado.

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Mas a rua continuou ali.

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Não tinha sinal para pedestre.

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Pegou uma caixa de papelão e dormiu.

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Esqueceu o chapéu e a sola do sapato desbeiçou.

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Caiu um piano do décimo andar de um prédio na terça feira, dia 17.

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Morreu um homem nesse quarteirão.

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou. Missa de sétimo dia, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7.

Tinha um senhor pronto para atravessar a rua, ele atravessou.

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Colocaram uma caixa em um cômodo de chão plano.  Antes só tinha um lugar, o chão plano, agora tem 5 lados de uma caixa mais o chão plano.
Se mandarem limpar esse quarto o senhorio vai reclamar. Ele demitiu a empregada só pra poder brincar, colocava coisas no lugar e via o lugar se multiplicar.

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Ophelia / O Clímax

setembro 25, 2011

 Ophelia

Você viu essa garota?
Quem?
Ophelia, linda…
Deveria ver quantos olhos a fitam.
Quem?
Ela fala com passarinhos.
Sozinha na janela.
Ophelia?
Sim, a querida Ophelia.
Todos a adoram.
Quem?
A inteligente Ophelia.
Nunca deixou de estudar.
Ophelia?
A sorridente Ophelia.
Seu sorriso é divino.
Quem?
Olhos de pérola.
Sempre brilhantes.
Ophelia?
Que postura!
Sempre bem vestida.
Ophelia?
Ela canta a noite.
Triste,  só.
Quem…Ophelia?
Ítistististis whuíuwhuíu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                 O Clímax

14:00 hr _ O sol queima como fogo dentro de uma casa antiquada. Os móveis denunciavam a idade da casa. O cheiro de madeira queimando por dentro impregna a sala. Um tédio aterrorizador que nem Gandhi aguentaria. Na poltrona clássica e confortável, um senhor sentado formalmente ao lado de uma linda mulher, uma verdadeira gueixa perdida no tempo. A cena é comum se eles não tivessem suas gargantas cortadas e se o sangue não jorrasse e banhasse metade da sala, a tornando um pedaço do inferno de Dante….

14:20 hrs _ “Nossa que calor insuportável, né pai?”, diz um garoto ao entrar no corredor. Ele apressou seus passos e continuava a dizer, “…não adianta se esconder não, você prometeu que iríamos ensaiar hoje”. Aquele chão de taco rangendo me tirando do sério…ao adentrar a sala e se deparar com a cena macabra, o menino fica estático. Sua alma transparente através de seus olhos arregalados e assustados. A criança estava vestida de uma roupa real européia , pronta para ensaiar sua primeira peça na nova escola…Shakespeare.

14:23 hrs _ O calor aumenta sem piedade, e dentro da casa a pobre criança vêm chorando em minha direção e me pedindo para “consertar” seu pai. Agora ele mal poderia ser visto, pois o sangue fizera o favor de encobrir seu rosto, uma tentativa da natureza de tingir a cena. Suas lágrimas, um oasis sagrado dentro do local.

14:30 hrs _ Me aproximando dos corpos, o homem aparentava ser um distinto, já a mulher ao seu lado se mostrava sedenta de amor, com um olhar doce, mesmo tendo sua garganta cortada tão friamente.

14:35 hrs _ Droga, não consigo pensar com esse maldito silêncio que não me dá trégua…estava tudo tão calmo…Quando chego perto do rosto dos dois, percebo um sorriso de agradecimento nos seus lábios suculentos, um pequeno alívio.

14:50 hrs _ Finalmente a policia chega, me perguntam sobre o cadáver, me espancam apenas por portar uma faca. Segundo eles, a arma que meu irmão usava para ensaiar com seu pai, agora morto, a mesma faca que aquela mulher fizera as cicatrizes em meu irmão. Marcas essas que agora eram abençoadas pelo choro de uma criança infeliz que nunca tivera a chance de viver como humano…nas sombras de suas imperfeições.

15: 00 hrs _ O Policial que me levava deixou sua mão afrouxar e consegui me livrar. Desferi um golpe fatal em meu coração, um corte forte e certeiro. As árvores balançavam com o vento, sem me entregarem uma folha para cobrir o rosto. O silêncio se completa, me acalmei mesmo com a tentativa de reanimação dos policiais…meu sangue se juntará aos porcos pais do menino. Meu espírito ao sofria um baque de arrependimento e satisfação…nem bruxas puderiam prever o final dessa peça sem ensaio.

15: 01 hrs _ Horário de minha morte, 19 anos de idade. Sobrevivente, fugitivo de uma penitenciária. Alimentado todo dia por um menino jogado as traças e que mesmo depois de uma sessão diária de humanidade subversiva, sorria pra mim ao trazer metade do seu prato sem se preocupar com a sua própria fome. Finalmente tinha encontrado Manson, Jesus, Ulysses… com um crime sagrado fecho a minha participação,  insensata ou humana?

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setembro 14, 2011

    Abril Cruel

 

Sou um homem bem sucedido…sou moderno. Nascido em bairro de classe média, desde garoto eu já anunciava o meu desejo para vencer na vida. Ajustei meu tempo conforme as necessidades para uma boa vida. Logo, o mundo para mim era um passeio, investimentos certeiros em formações, conforto, ótimos empregos, amores de meninas perdidas…eu passava rápido por tudo colecionando lembranças de esquecimentos. Você sabe, do alto não se olha para baixo por dois motivos: a vertigem e a verdade. Todavia, sem delongas, vamos a divertida história da minha infelicidade, o que interessa.

Sou um engenheiro formado com todas as odes possíveis, notas altas, grande fama, charmosíssimo, aliás, deveria ter meu rosto estampado em um capa de livro de auto ajuda. Enfim, tinha acabado de publicar um estudo acadêmico que  me colocou em grande disputa no mercado de trabalho. Esse destaque unido a minha competência e sociabilidade no meu atual emprego fez com que a maior empresa petrolífera do país me procurasse. Não era só uma grande empresa, seu teto salárial ultrapassava o imaginável, até mesmo para o bom salário que ganhava. Só o interesse já mostrava o quanto eu era poderoso.

Chegamos a entrevista. Como me era comum, já a tinha sob controle antes mesmo do seu início. Uma entrada confiante na sala do diretor inicia uma extasiante conversa de duas horas, ele me explica toda a política da empresa e confirma com documentos as exorbitantes vantagens de ser um dos seus funcionários. Na hora de fecharmos o contrato, ele me oferece um cargo maior do que esperava, e com todo aquele extase faço uma brincadeira com o campo de interesse salárial que preenchi, escrevendo “o suficiente para viver”. Ele sorriu, apertou-me as mãos e me indicou a porta gentilmente.

A partir desse dia, se iniciou o mês mais feliz de minha existência. E como em um sonho os 30 dias voaram. No dia 04 de abril, dia do pagamento, recebo as 7 da manhã uma mensagem do meu gerente dizendo que um motoboy iria me entregar o salário em casa. Estranhei e mantive esse semblante até o motoboy tocar a campainha, me entregar uma caixa enorme e partir sem dar explicação. Segundos depois, percebi que tinha acabado de receber uma cesta básica e 500 reais, que valeriam mais se gastasse conforme as indicações contidas em um bilhete. Na etiqueta a confirmação: salário de abril. Desesperado corro em direção ao lugar que tinha guardado a sete chaves o meu contrato. Um minuto de silêncio abismal seguido da conclusão, estava tudo alí junto a uma cláusula de rescisão exorbitante, meus próximos 10 anos de tristeza se postaram naquele momento. Coloco o documento debaixo do braço, dirijo rápido, piso no acelerador sem nem sentir o pé, caminho na empresa sem nem sentir o chão, respiro mal e vejo com dificuldade, percebo que aquela confiança nunca foi minha, era só uma companhia ingrata. Entro na sala do diretor e me encho de raiva. Ele estava calmo, parado me esperando ao lado do seu advogado. Vocifero por meia hora palavras já anunciadas. Em dois segundos de pausa para engolir a saliva, ele aproveita e em tom solene e sério me diz que o salário era “o suficiente para eu viver”. Começo a rir, rio, rio, rio…até ter um ataque do coração no meio da sala.

Hoje, dois anos depois do incidente, confesso que eu estava equivocado. A piada só existe para quem está disposto a rir dela. Mas eu aos poucos vou me ajeitando, atualmente divido o meu tempo em dois lugares, o trabalho e a psiquiatria, o trabalho pelo contrato e a psiquiatria pelo prazer. Ando meio sensível, o silêncio anda me tirando tudo. Meu relógio com pilhas gastas acusa que as horas estão à correr atrás dos minutos. Minha casa abandonada se mostra indiferente, todavia o jardim parece esperar o dia em que a piada completa o seu ciclo com o meu riso.

Agora são seis e vinte da manhã. O sol nasce iluminando a folha na qual escrevo esse texto dificultando a minha visão. Acho que vou aceitar o convite do vento e terminar essa crônica sem escrever…mas antes, peço que me perdoe por não ter me apresentado até agora. Acontece que agora eu não posso. Não sei se tenho nome, e esse que carrego pode me deixar em breve.  Peço para aguardar um tempo leitor, pelo menos até nós dois sairmos da psiquiatria.

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Ilusionista?

maio 27, 2011

Ilusionista?

Há! Gritava sem nem mesmo ter acabado o truque. Mas o coelho não entra mais na cartola. Alguma vez ele esteve lá? As ajudantes de palco distraem os convidados, uma com roupas curtas e a outra com uma voz sensual. O auditório nem sequer percebe o preparo desse ato simples, uma camuflagem banal em pleno século 21. Com luvas brancas e um pensamento de precisão cirúrgica ele prepara os cérebros para a ilusão. Logo depois mostra uma resolução de pura realidade entrando em uma porta oculta que sempre esteve do seu lado.

Tcharam! Aparece o homem misterioso com sua cartola mágica e sua roupa elegante acompanhado de belas mulheres.  Uma presença marcante, um olhar engraçado, porém calado e sério.  Com uma introdução filosófica de silêncio ele te acorda pelo sono. E você pensando que dormir era um modo de se desligar.

Poof… Que bela parafernália! Um verdadeiro show de pirotecnia. O estouro te tira do estado de vigília, o enxofre e o nitrato de potássio são arrebatados pelo belo perfume do lugar, os ohos das assistentes te encaram com um charme e uma serenidade incomparável, o carvão da pólvora, inodoro .

OH! O lençol desce com um leve toque. Agora sim homens e mulheres observam abismados procurando respostas nos quatro cantos do lugar, mas não demora muito para os olhos maravilhados olharem outra vez para o homem simpático e de cabelos despenteados. O último lugar que deveriam procurar respostas. Entre os gritos de “sensacional” e “fantástico” podia se ouvir um sereno e cansado “obrigado”.

As poltronas vão se esvaziando. O show acabou. A mágica acabou. Mas a pergunta fica:  houve mágica? No olhar do mágico se podia facilmente avistar o glorioso e seco eco da satisfação e o temido populismo da solidão.  Ele vira a cabeça, olha para uma de suas assistentes e diz com um tom seco:  O que eles viram?

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Fetiches como propósito

abril 23, 2011

Fetichismo pelo social ou cultural é a abertura “perfeita” e necessária pra meninos desengonçados, desprezivelmente rasos e molestados pelo sistema.  E meninas que já jogadas num mundo estéril,  comparadas à traças e postadas como princesas de um mundo sem monarquia  se colocam como ferramenta essencial de validação desse fetichismo.
Frases de outdoor e de publicidade pulam nos cartazes e nas cabeças, guiando um falso ideal de liberdade. Essa é a abertura necessária para experimentarem relações, emoções e o sexo. Mas cá entre nós,  sabemos que por mais que se relacionem nunca se relacionarão. Por mais que se emocionem nunca serão tocados, e por mais que transem nunca sentirão o sexo.

O mundo é feito pra eles! Diz o rapaz alterado…e alguém no fundo completa:  O mesmo pensamento de um inocente escravo em sua Saturnais.

Pensamentos para compreensão:

“escravos eloqüentes e folhetinescos do gosto democrático e suas ‘idéias modernas’; todos eles homens sem solidão, sem solidão própria, rapazes bonzinhos e desajeitados,  a quem não se pode negar coragem nem costumes respeitáveis, mas que são cativos e ridiculamente  superficiais, sobretudo em sua tendência básica de ver, nas formas da velha sociedade até agora existente, a causa de toda miséria e falência humana: com o que a verdade vem a ficar alegremente de cabeça para baixo! O que eles gostariam de perseguir com todas as forças é a universal felicidade do rebanho em prado verde, com segurança, ausência de perigo, bem-estar e felicidade  para todos; suas doutrinas e cantigas mais lembradas são ‘igualdade de direitos’ e ‘compaixão pelos que sofrem’- e o sofrimento mesmo é visto por eles como algo que se deve abolir. Nós, os avessos, que abrimos os olhos e a consciência para a questão de onde e de que modo, até hoje, a planta ‘homem’ cresceu mais vigorosamente às alturas, acreditamos que isso sempre ocorreu em condições opostas, que para isso a periculosidade  de sua situação tinha de crescer até o extremo, sua força de invenção e dissimulação (seu ‘espírito’) tinha de converter-se, sob prolongada pressão e coerção, em algo fino e temerário, sua vontade de vida tinha de ser exacerbada até se tornar absoluta vontade de poder – acreditamos que dureza, violência, escravidão, perigo nas ruas e no coração, ocultamento, estoicismo, arte da tentação e diabolismo de toda espécie, tudo o que há de mau, terrível, tirânico, tudo o que há de animal de rapina e de serpente no homem serve tão bem à elevação da espécie ‘homem’ quanto seu contrário – mas ainda não dissemos o bastante, ao dizer apenas isso, e de todo modo nos achamos, com nossa fala e nosso silêncio neste ponto, na outra extremidade de toda a moderna ideologia  e aspiração de rebanho: como seus antípodas, talvez?”

Nietzsche

“A forma mais baixa que podemos conceber do universo de homens é aquela a que Heidegger chamou do mundo do “man”, mundo em que nos deixamos aglomerar quando renunciamos a ser pessoas lúcidas e responsáveis; mundo da consciência sonolenta,dos instintos anônimos, das relações mundanas, de quotidiano, do conformismo social ou político,da mediocridade moral,da multidão,das massas anônimas,das organizações irresponsáveis. Mundo sem vitalidade e desolado,onde cada pessoa renunciou provisoriamente a sê-lo,para se transformar num qualquer,não interessa quem,de qualquer forma. O mundo do não constitui,nem um nós,nem um todo. Não está ligado a esta ou aquela forma social,antes é em todas elas uma maneira de ser. O primeiro ato duma vida pessoal é a tomada de consciência dessa vida anônima e a revolta contra a degradação que representa”.

Emmanuel Mounier

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Escute a alegoria falar

março 11, 2011

 

Duas valiosas percepções sobre a vida indicadas por um treino de hipertrofia:

A intensidade é o que realmente interessa. A quantidade te distrai do que faz efeito, e não existe volta ao passado. Só te sobra o consolo de alcançar l’esprit de l’escalier.

Só é possível crescer aumentando o peso que se carrega, e junto com ele a resistência. Arriscar uma quantidade maior nunca tentada, olhar a frustração de perto algumas vezes e lhe dar com isso de frente. Mas não poderia ser diferente. Aqueles que passam sem levar nada acabam sem querer levando a maldição da atrofia. Uma morte lenta e triste que definha aquele(a) que um dia foi potência.

Esse(a) se colocou na exaustão da vida e também na temida porém gratificante sensação de sentir-se despido de tudo aquilo que no fundo não leva consigo. Depois segue a pausa, vigorosamente preenchida pelo olhar abismado e pela respiração ofegante, mal sabe que essa é a representação de um dos mais fascinantes processos humanos: o da mulher que da à luz. O olhar fixo de quem pariu um novo corpo e abandonou a prisão de corvadia mantida até a nobre cachoeira de suor começar a cair, e refletir em suas águas alguém maior.

 

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Contos perdidos II

agosto 5, 2010

A maldição de  Prometeu

Acorrentado, imóvel, deitado, indiscreto, vivo…Dos olhos cansados  de Prometeu a vista acabara de perder o que a restava de azul. Aquele vento frio lhe dizia que era hora de tirar sua mente da montanha e distribuir sua dor pela paisagem. Seu olhar calmo daria medo até nos cérebros mais cruéis, agora ele era superior. Lançava sobre o horizonte um ponto de vista firme e comovente, o organismo trabalhava no seu máximo, quase à exaustão, usando o que lhe resta de energia para o abrir e fechar das pálpebras. O andar agora é um sonho muito distante.Tão perto e tão longe do céu, malditos justos, lhe tiraram a morte. Justa injustiça.

Prometeu avista uma ave preta em seu cansado campo de visão e em um surto de extravagância enérgica olha para baixo e sussura: “Vós viveis de tudo…menos de vida!” cuspindo para o nada em seguida. Não se sabe o que acontecera com sua saliva,  só se sabe que ela não lhe fez falta.

Sem som ou aviso,  lá vem ele…ele se aproxima com o seu brilhante terno preto e um olhar traiçoeiro, observa aquele homem tão vivo, mas já falecido, o encara como quem fará um questionamento impecável. Para por alguns segundos, e como um míssil ele aponta seu bico para o coração de Prometeu. Em um ato  raivoso come o seu coração com uma assustadora vontade. A cara suja de um vermelho forte não hesita em olhar o rosto do pobre defunto, e sua boca tremendo dispara: “Acabo de quebrar sua maldição, acabo de lhe dar vida…Em troca, finjo estar satisfeito em comer esta mesma comida. Eis a minha maldição!”

Uma insustentável revolta


Sentado em um local confortável, talhando sua própria existência, é tudo o que se faz ao entardecer desse dia. O ar puro que vai deixando seus pulmões oxigenados, os pensamentos  a todo vapor, fazendo assim toda a programação sair do ar. Os olhos não mais assistem o mundo do jeito que o cérebro quer,  só você e o sol, cara a cara. Quem vai cair primeiro? Quem vai se virar primeiro? Qual dos dois realmente é o centro?

As pessoas diminuem o ritmo, sentem os mesmos sintomas, mas só você sabe a causa. O astro rei é ofuscado e você logo se enche de prazer e grita aos quatro cantos que é o dono do mundo.Logo essa estrela indiscreta sai de cena, tudo o que queria para se encher de glória, porém não consegue ser mais o mesmo.A lua te suga com aquele olhar calmo, e incrívelmente você acata as ordens e cai em um sono profundo. Enquanto dorme, a lua comanda a noite sem grandes concorrentes, a não ser os noturnos que agora se divertem, mas que antes sucumbiram diante do sol.