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setembro 14, 2011

    Abril Cruel

 

Sou um homem bem sucedido…sou moderno. Nascido em bairro de classe média, desde garoto eu já anunciava o meu desejo para vencer na vida. Ajustei meu tempo conforme as necessidades para uma boa vida. Logo, o mundo para mim era um passeio, investimentos certeiros em formações, conforto, ótimos empregos, amores de meninas perdidas…eu passava rápido por tudo colecionando lembranças de esquecimentos. Você sabe, do alto não se olha para baixo por dois motivos: a vertigem e a verdade. Todavia, sem delongas, vamos a divertida história da minha infelicidade, o que interessa.

Sou um engenheiro formado com todas as odes possíveis, notas altas, grande fama, charmosíssimo, aliás, deveria ter meu rosto estampado em um capa de livro de auto ajuda. Enfim, tinha acabado de publicar um estudo acadêmico que  me colocou em grande disputa no mercado de trabalho. Esse destaque unido a minha competência e sociabilidade no meu atual emprego fez com que a maior empresa petrolífera do país me procurasse. Não era só uma grande empresa, seu teto salárial ultrapassava o imaginável, até mesmo para o bom salário que ganhava. Só o interesse já mostrava o quanto eu era poderoso.

Chegamos a entrevista. Como me era comum, já a tinha sob controle antes mesmo do seu início. Uma entrada confiante na sala do diretor inicia uma extasiante conversa de duas horas, ele me explica toda a política da empresa e confirma com documentos as exorbitantes vantagens de ser um dos seus funcionários. Na hora de fecharmos o contrato, ele me oferece um cargo maior do que esperava, e com todo aquele extase faço uma brincadeira com o campo de interesse salárial que preenchi, escrevendo “o suficiente para viver”. Ele sorriu, apertou-me as mãos e me indicou a porta gentilmente.

A partir desse dia, se iniciou o mês mais feliz de minha existência. E como em um sonho os 30 dias voaram. No dia 04 de abril, dia do pagamento, recebo as 7 da manhã uma mensagem do meu gerente dizendo que um motoboy iria me entregar o salário em casa. Estranhei e mantive esse semblante até o motoboy tocar a campainha, me entregar uma caixa enorme e partir sem dar explicação. Segundos depois, percebi que tinha acabado de receber uma cesta básica e 500 reais, que valeriam mais se gastasse conforme as indicações contidas em um bilhete. Na etiqueta a confirmação: salário de abril. Desesperado corro em direção ao lugar que tinha guardado a sete chaves o meu contrato. Um minuto de silêncio abismal seguido da conclusão, estava tudo alí junto a uma cláusula de rescisão exorbitante, meus próximos 10 anos de tristeza se postaram naquele momento. Coloco o documento debaixo do braço, dirijo rápido, piso no acelerador sem nem sentir o pé, caminho na empresa sem nem sentir o chão, respiro mal e vejo com dificuldade, percebo que aquela confiança nunca foi minha, era só uma companhia ingrata. Entro na sala do diretor e me encho de raiva. Ele estava calmo, parado me esperando ao lado do seu advogado. Vocifero por meia hora palavras já anunciadas. Em dois segundos de pausa para engolir a saliva, ele aproveita e em tom solene e sério me diz que o salário era “o suficiente para eu viver”. Começo a rir, rio, rio, rio…até ter um ataque do coração no meio da sala.

Hoje, dois anos depois do incidente, confesso que eu estava equivocado. A piada só existe para quem está disposto a rir dela. Mas eu aos poucos vou me ajeitando, atualmente divido o meu tempo em dois lugares, o trabalho e a psiquiatria, o trabalho pelo contrato e a psiquiatria pelo prazer. Ando meio sensível, o silêncio anda me tirando tudo. Meu relógio com pilhas gastas acusa que as horas estão à correr atrás dos minutos. Minha casa abandonada se mostra indiferente, todavia o jardim parece esperar o dia em que a piada completa o seu ciclo com o meu riso.

Agora são seis e vinte da manhã. O sol nasce iluminando a folha na qual escrevo esse texto dificultando a minha visão. Acho que vou aceitar o convite do vento e terminar essa crônica sem escrever…mas antes, peço que me perdoe por não ter me apresentado até agora. Acontece que agora eu não posso. Não sei se tenho nome, e esse que carrego pode me deixar em breve.  Peço para aguardar um tempo leitor, pelo menos até nós dois sairmos da psiquiatria.

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