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Ophelia / O Clímax

setembro 25, 2011

 Ophelia

Você viu essa garota?
Quem?
Ophelia, linda…
Deveria ver quantos olhos a fitam.
Quem?
Ela fala com passarinhos.
Sozinha na janela.
Ophelia?
Sim, a querida Ophelia.
Todos a adoram.
Quem?
A inteligente Ophelia.
Nunca deixou de estudar.
Ophelia?
A sorridente Ophelia.
Seu sorriso é divino.
Quem?
Olhos de pérola.
Sempre brilhantes.
Ophelia?
Que postura!
Sempre bem vestida.
Ophelia?
Ela canta a noite.
Triste,  só.
Quem…Ophelia?
Ítistististis whuíuwhuíu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                 O Clímax

14:00 hr _ O sol queima como fogo dentro de uma casa antiquada. Os móveis denunciavam a idade da casa. O cheiro de madeira queimando por dentro impregna a sala. Um tédio aterrorizador que nem Gandhi aguentaria. Na poltrona clássica e confortável, um senhor sentado formalmente ao lado de uma linda mulher, uma verdadeira gueixa perdida no tempo. A cena é comum se eles não tivessem suas gargantas cortadas e se o sangue não jorrasse e banhasse metade da sala, a tornando um pedaço do inferno de Dante….

14:20 hrs _ “Nossa que calor insuportável, né pai?”, diz um garoto ao entrar no corredor. Ele apressou seus passos e continuava a dizer, “…não adianta se esconder não, você prometeu que iríamos ensaiar hoje”. Aquele chão de taco rangendo me tirando do sério…ao adentrar a sala e se deparar com a cena macabra, o menino fica estático. Sua alma transparente através de seus olhos arregalados e assustados. A criança estava vestida de uma roupa real européia , pronta para ensaiar sua primeira peça na nova escola…Shakespeare.

14:23 hrs _ O calor aumenta sem piedade, e dentro da casa a pobre criança vêm chorando em minha direção e me pedindo para “consertar” seu pai. Agora ele mal poderia ser visto, pois o sangue fizera o favor de encobrir seu rosto, uma tentativa da natureza de tingir a cena. Suas lágrimas, um oasis sagrado dentro do local.

14:30 hrs _ Me aproximando dos corpos, o homem aparentava ser um distinto, já a mulher ao seu lado se mostrava sedenta de amor, com um olhar doce, mesmo tendo sua garganta cortada tão friamente.

14:35 hrs _ Droga, não consigo pensar com esse maldito silêncio que não me dá trégua…estava tudo tão calmo…Quando chego perto do rosto dos dois, percebo um sorriso de agradecimento nos seus lábios suculentos, um pequeno alívio.

14:50 hrs _ Finalmente a policia chega, me perguntam sobre o cadáver, me espancam apenas por portar uma faca. Segundo eles, a arma que meu irmão usava para ensaiar com seu pai, agora morto, a mesma faca que aquela mulher fizera as cicatrizes em meu irmão. Marcas essas que agora eram abençoadas pelo choro de uma criança infeliz que nunca tivera a chance de viver como humano…nas sombras de suas imperfeições.

15: 00 hrs _ O Policial que me levava deixou sua mão afrouxar e consegui me livrar. Desferi um golpe fatal em meu coração, um corte forte e certeiro. As árvores balançavam com o vento, sem me entregarem uma folha para cobrir o rosto. O silêncio se completa, me acalmei mesmo com a tentativa de reanimação dos policiais…meu sangue se juntará aos porcos pais do menino. Meu espírito ao sofria um baque de arrependimento e satisfação…nem bruxas puderiam prever o final dessa peça sem ensaio.

15: 01 hrs _ Horário de minha morte, 19 anos de idade. Sobrevivente, fugitivo de uma penitenciária. Alimentado todo dia por um menino jogado as traças e que mesmo depois de uma sessão diária de humanidade subversiva, sorria pra mim ao trazer metade do seu prato sem se preocupar com a sua própria fome. Finalmente tinha encontrado Manson, Jesus, Ulysses… com um crime sagrado fecho a minha participação,  insensata ou humana?

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setembro 14, 2011

    Abril Cruel

 

Sou um homem bem sucedido…sou moderno. Nascido em bairro de classe média, desde garoto eu já anunciava o meu desejo para vencer na vida. Ajustei meu tempo conforme as necessidades para uma boa vida. Logo, o mundo para mim era um passeio, investimentos certeiros em formações, conforto, ótimos empregos, amores de meninas perdidas…eu passava rápido por tudo colecionando lembranças de esquecimentos. Você sabe, do alto não se olha para baixo por dois motivos: a vertigem e a verdade. Todavia, sem delongas, vamos a divertida história da minha infelicidade, o que interessa.

Sou um engenheiro formado com todas as odes possíveis, notas altas, grande fama, charmosíssimo, aliás, deveria ter meu rosto estampado em um capa de livro de auto ajuda. Enfim, tinha acabado de publicar um estudo acadêmico que  me colocou em grande disputa no mercado de trabalho. Esse destaque unido a minha competência e sociabilidade no meu atual emprego fez com que a maior empresa petrolífera do país me procurasse. Não era só uma grande empresa, seu teto salárial ultrapassava o imaginável, até mesmo para o bom salário que ganhava. Só o interesse já mostrava o quanto eu era poderoso.

Chegamos a entrevista. Como me era comum, já a tinha sob controle antes mesmo do seu início. Uma entrada confiante na sala do diretor inicia uma extasiante conversa de duas horas, ele me explica toda a política da empresa e confirma com documentos as exorbitantes vantagens de ser um dos seus funcionários. Na hora de fecharmos o contrato, ele me oferece um cargo maior do que esperava, e com todo aquele extase faço uma brincadeira com o campo de interesse salárial que preenchi, escrevendo “o suficiente para viver”. Ele sorriu, apertou-me as mãos e me indicou a porta gentilmente.

A partir desse dia, se iniciou o mês mais feliz de minha existência. E como em um sonho os 30 dias voaram. No dia 04 de abril, dia do pagamento, recebo as 7 da manhã uma mensagem do meu gerente dizendo que um motoboy iria me entregar o salário em casa. Estranhei e mantive esse semblante até o motoboy tocar a campainha, me entregar uma caixa enorme e partir sem dar explicação. Segundos depois, percebi que tinha acabado de receber uma cesta básica e 500 reais, que valeriam mais se gastasse conforme as indicações contidas em um bilhete. Na etiqueta a confirmação: salário de abril. Desesperado corro em direção ao lugar que tinha guardado a sete chaves o meu contrato. Um minuto de silêncio abismal seguido da conclusão, estava tudo alí junto a uma cláusula de rescisão exorbitante, meus próximos 10 anos de tristeza se postaram naquele momento. Coloco o documento debaixo do braço, dirijo rápido, piso no acelerador sem nem sentir o pé, caminho na empresa sem nem sentir o chão, respiro mal e vejo com dificuldade, percebo que aquela confiança nunca foi minha, era só uma companhia ingrata. Entro na sala do diretor e me encho de raiva. Ele estava calmo, parado me esperando ao lado do seu advogado. Vocifero por meia hora palavras já anunciadas. Em dois segundos de pausa para engolir a saliva, ele aproveita e em tom solene e sério me diz que o salário era “o suficiente para eu viver”. Começo a rir, rio, rio, rio…até ter um ataque do coração no meio da sala.

Hoje, dois anos depois do incidente, confesso que eu estava equivocado. A piada só existe para quem está disposto a rir dela. Mas eu aos poucos vou me ajeitando, atualmente divido o meu tempo em dois lugares, o trabalho e a psiquiatria, o trabalho pelo contrato e a psiquiatria pelo prazer. Ando meio sensível, o silêncio anda me tirando tudo. Meu relógio com pilhas gastas acusa que as horas estão à correr atrás dos minutos. Minha casa abandonada se mostra indiferente, todavia o jardim parece esperar o dia em que a piada completa o seu ciclo com o meu riso.

Agora são seis e vinte da manhã. O sol nasce iluminando a folha na qual escrevo esse texto dificultando a minha visão. Acho que vou aceitar o convite do vento e terminar essa crônica sem escrever…mas antes, peço que me perdoe por não ter me apresentado até agora. Acontece que agora eu não posso. Não sei se tenho nome, e esse que carrego pode me deixar em breve.  Peço para aguardar um tempo leitor, pelo menos até nós dois sairmos da psiquiatria.