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Contos perdidos II

agosto 5, 2010

A maldição de  Prometeu

Acorrentado, imóvel, deitado, indiscreto, vivo…Dos olhos cansados  de Prometeu a vista acabara de perder o que a restava de azul. Aquele vento frio lhe dizia que era hora de tirar sua mente da montanha e distribuir sua dor pela paisagem. Seu olhar calmo daria medo até nos cérebros mais cruéis, agora ele era superior. Lançava sobre o horizonte um ponto de vista firme e comovente, o organismo trabalhava no seu máximo, quase à exaustão, usando o que lhe resta de energia para o abrir e fechar das pálpebras. O andar agora é um sonho muito distante.Tão perto e tão longe do céu, malditos justos, lhe tiraram a morte. Justa injustiça.

Prometeu avista uma ave preta em seu cansado campo de visão e em um surto de extravagância enérgica olha para baixo e sussura: “Vós viveis de tudo…menos de vida!” cuspindo para o nada em seguida. Não se sabe o que acontecera com sua saliva,  só se sabe que ela não lhe fez falta.

Sem som ou aviso,  lá vem ele…ele se aproxima com o seu brilhante terno preto e um olhar traiçoeiro, observa aquele homem tão vivo, mas já falecido, o encara como quem fará um questionamento impecável. Para por alguns segundos, e como um míssil ele aponta seu bico para o coração de Prometeu. Em um ato  raivoso come o seu coração com uma assustadora vontade. A cara suja de um vermelho forte não hesita em olhar o rosto do pobre defunto, e sua boca tremendo dispara: “Acabo de quebrar sua maldição, acabo de lhe dar vida…Em troca, finjo estar satisfeito em comer esta mesma comida. Eis a minha maldição!”

Uma insustentável revolta


Sentado em um local confortável, talhando sua própria existência, é tudo o que se faz ao entardecer desse dia. O ar puro que vai deixando seus pulmões oxigenados, os pensamentos  a todo vapor, fazendo assim toda a programação sair do ar. Os olhos não mais assistem o mundo do jeito que o cérebro quer,  só você e o sol, cara a cara. Quem vai cair primeiro? Quem vai se virar primeiro? Qual dos dois realmente é o centro?

As pessoas diminuem o ritmo, sentem os mesmos sintomas, mas só você sabe a causa. O astro rei é ofuscado e você logo se enche de prazer e grita aos quatro cantos que é o dono do mundo.Logo essa estrela indiscreta sai de cena, tudo o que queria para se encher de glória, porém não consegue ser mais o mesmo.A lua te suga com aquele olhar calmo, e incrívelmente você acata as ordens e cai em um sono profundo. Enquanto dorme, a lua comanda a noite sem grandes concorrentes, a não ser os noturnos que agora se divertem, mas que antes sucumbiram diante do sol.