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Uma análise contemporânea de “Admirável Gado Novo”

dezembro 3, 2009

Revivendo o blog do nada, venho fazer um post interessante para quem gosta de interpretações um tanto quanto filosóficas.Abaixo mostro uma análise diferente, não digo minha porque muitas pessoas devem ter isso em mente também, da música Admirável Gado Novo de um dos meus artistas favoritos dentro do cenário musical brasileiro, Zé Ramalho.


Obs: Os termos marcados com asterisco(*) são explicados no final do post.


Admirável Gado Novo


Composição: Zé Ramalho


No título existe uma referencia clara ao livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley.Nessa fábula, Huxley trabalha uma visão futurista de enorme contraste com a sua época, 1931, caracteriza pela falta de ordem.A obra retrata um mundo extremamente normativo, de ordem em demasia, com sociedades divididas em castas e aonde o social é substituido pela atuação da ciência.


Na troca de “mundo” por “gado” acontece não só uma redução social, o foco caí sobre nós humanos modernos através de uma metáfora Nietzschiana, mas também exprimi outro uso da frase tomado pelo sentido literal.É um “gado novo”, um “gado” que ainda não participa do jogo e que assim, assiste a tudo da form mais isenta possível.

Oooooooooh! Oooi!

Vocês que fazem parte dessa massa

Que passa nos projetos do futuro

É duro tanto ter que caminhar

E dar muito mais do que receber…


Logo no começo há uma retomada das idéias dissecadas do título.”Vocês” é usado para distânciar o narrador da “massa”, palavra essa que toma o sentido de rebanho.

“projetos do futuro” remonta o ambiente futurista do livro “Admirável mundo novo”.

A frase “dar muito mais do que receber” pode ser interpretada como o famoso problema social do produtivismo, sistema que se inaugura na sociedade mercantilista.


E ter que demonstrar sua coragem

À margem do que possa parecer

E ver que toda essa engrenagem

Já sente a ferrugem lhe comer…


Aqui é possível notar uma afirmação, quase um manifesto, alertando a autodestruição do sistema social-político em que vivemos.


Êeeeeh! Oh! Oh!

Vida de gado

Povo marcado

Êh!

Povo feliz!…(2x)


Essa felicidade citada no refrão pode ser facilmente relacionada com o conceito de felicidade moderna de Nietzsche*.


Lá fora faz um tempo confortável

A vigilância cuida do normal

Os automóveis ouvem a notícia

Os homens a publicam no jornal…


-Na primeira frase é tomada a alienação de forma sarcástica mudando o foco para um mundo em que o próprio narrado não se inclui mais.

-Quem conhece as teses de Foucault logo se identificará com a segunda frase e a ligará com a “Sociedade Disciplinar” *.Uma sociedade que castra as subjetivações e que controla através de poderes* normatização da sociedade.

-As últimas duas frases invertem o modo de visão humanista tratando o homem como mero propagador objetivo do que se passa em um mundo mecanizado.


E correm através da madrugada

A única velhice que chegou

Demoram-se na beira da estrada

E passam a contar o que sobrou…


Nesse verso a palavra “velhice” pode ser tomada como amadurecimento, ou seja, o único e pseudo amadurecimento que chegou.


Êeeeeh! Oh! Oh!

Vida de gado

Povo marcado

Êh!

Povo feliz!…(2x)


Oooooooooh! Oh! Oh!

O povo foge da ignorância

Apesar de viver tão perto dela

E sonham com melhores tempos idos

Contemplam essa vida numa cela…


Uma critica a segregação.A ignorância está mais perto do que se pensa, e o que se costuma se chamar de “elite” é apenas um grupo que foge da ignorância deixando rastros nítidos.

Nas últimas duas frases há uma explicitação do conformismo tal qual Álvaro Campos(Fernando Pessoa) na consagrada poesia “A Tabacaria” que tenta levar o passado na algibreira da calça, vivendo assim de uma ilusão.


Esperam nova possibilidade

De verem esse mundo se acabar

A Arca de Noé, o dirigível

Não voam nem se pode flutuar

Não voam nem se pode flutuar

Não voam nem se pode flutuar…


Uma crítica clara à religião e a dependência causada por ela.Sem catástrofe, sem a inumdação a arca não se move, além de não existir alguém capaz de dirigi-la, dependemos de Noé.Dependemos de um avatar, e isso se mostra em todas as religiões.


Êeeeeh! Oh! Oh!

Vida de gado

Povo marcado

Êh!

Povo feliz!…(2x)

Ooooooooooooooooh!


“Sociedade disciplinar” —-Foucault mostra como a sociedade é normativa e como ela padroniza os cidadãos(sem excessão) violentamente através de todos os tipos de poderes, principalmente o do saber.

Poderes em Foucaut —-No contexto o filósofo francês não só trabalha com poderes históricamente e economicamente absolutos como grandes corporações, religiões, sistemas sociais.Demonstra que poderes estão presentes em qualquer tipo de relação seja ela uma mera conversa ou um regime político.

Alegria moderna em Nietzsche —- Nit ironiza o conceito moderno de felicidade mostrando que ele é apenas uma fuga da vida, um jeito parcial de se viver fugindo da dor e dos aspectos tidos moralmente como “negativos”.A real felicidade só é encontrada quando se aceita a vida integralmente, com todos os seus prazeres e toda as suas dores e sofrimentos.

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