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Indo dos Arquétipos a Moralidade – Primeira Parte

junho 8, 2018

Todos nós já passamos pela dor de perder alguém. A falta que faz, a vontade de ter feito mais por aquela pessoa, a vontade de ter dito palavras mais honestas e doces…mas a morte parece vir para tudo. Apesar disso, parecemos continuar a amar aquelas pessoas especiais e continuamos a respeita-las e até guardamos um espaço em nosso coração para elas. “Uma morte digna” diriam muitos, “o corpo se foi, mas sempre será lembrado”.
E vem para tudo. Lembra daquele hábito antigo seu que você abandonou? Ele morreu. Aquela pessoa que só viu uma vez? Também morreu. E aquela ideia sua de quando você tinha 10 anos? Morreu. Aquela coisa que você fez algumas vezes ? Morreu. E seriam mortes dignas? Talvez. Seriam mortes de indigentes? Talvez.
Duro tentarmos imaginar esse nosso jardim no qual repousam nossos queridos falecidos. Mais difícil ainda é imaginarmos esse jardins com não tão queridos falecidos. Imagina colocarmos uma pessoa ruim ou algo ruim próximo de onde descança uma pessoa especial? Quase um crime.
Pessoas, experiências, emoções, pensamentos, tudo tem sua mortalidade, tudo tem seu corpo que exige um local para que descanse em paz(ou não).
Um tema meio mórbido até agora, eu sei. Todavia, vamos metaforear mais um pouco.
“Tudo se transforma, nada se cria ou desaparece”
Já ouviu falar de uma máxima assim, certo?
Agora entendamos que esse período de transformação não se passa em instantes. Isso você já deve saber, em todos os níveis, inclusive fisiologicamente, até mesmo as coisas mais instintivas precisam de frações de segundos para serem transformadas em ações(sinapses-ação motora ou processo fisiológico). Há ai então, todo um processo de latência, há aos olhos mortais um período em que tudo repousa, esperando seu próximo estágio . Como diria Rilke, “O simples é uma maneira de esconder a complexidade que há por trás”.
Temos em nós o berçário, o mundo e o cemitério de tudo o que pensamos, sentimos, processamos conscientemente e inconscientemente.
Entenda agora a responsabilidade de escolher bem tudo com o que se envolve conscientemente e inconscientemente.
Agora você talvez pense: “Mas tudo depende de como eu processo isso, certo? Basta processar de forma positiva “. É isso que importa, certo?. A reposta é simples e se divide em dois pontos:

Quem de você processa e como processa? Um macaco processando o funcionamento de um relógio suiço seria um problema. Aliás, a compreensão da coisa processada depende da sabedoria de quem a processa.

Mas o ponto principal é, quais são as ferramentas, qual a unidade? Santo Agostinho já usava o conceito de “Ideias Primordiais”, imagens que geram conteúdo quase infinito. Veja, imagine algum ato heroico…você irá processa-lo  tendo em vista seus conceitos pessoais de “heróis”, “ato heroico”, etc. Porém, esses conceitos são realmente pessoais? Não, as ideias primordiais então enraizadas no inconsciente coletivo, são moldes essenciais…logo, não somos nós que determinamos conscientemente o que forma um “herói”.

Retomando esses dois pontos fica claro que não é uma questão de processamento de experiências somente e sim de escolhas. Como Heidegger disse em “Ser e Tempo”, “Não ser já é uma escolha”. Inexiste escapatória da responsabilidade de sempre estarmos escolhendo, e precisamos fazer escolhas certas e fugir da banalidade, vulgaridade, que representa a desconexão de uma essência, de ideias primordiais. Façamos um jardim de pessoas e coisas especiais.

 

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Ophelia / O Clímax

setembro 25, 2011

 Ophelia

Você viu essa garota?
Quem?
Ophelia, linda…
Deveria ver quantos olhos a fitam.
Quem?
Ela fala com passarinhos.
Sozinha na janela.
Ophelia?
Sim, a querida Ophelia.
Todos a adoram.
Quem?
A inteligente Ophelia.
Nunca deixou de estudar.
Ophelia?
A sorridente Ophelia.
Seu sorriso é divino.
Quem?
Olhos de pérola.
Sempre brilhantes.
Ophelia?
Que postura!
Sempre bem vestida.
Ophelia?
Ela canta a noite.
Triste,  só.
Quem…Ophelia?
Ítistististis whuíuwhuíu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                 O Clímax

14:00 hr _ O sol queima como fogo dentro de uma casa antiquada. Os móveis denunciavam a idade da casa. O cheiro de madeira queimando por dentro impregna a sala. Um tédio aterrorizador que nem Gandhi aguentaria. Na poltrona clássica e confortável, um senhor sentado formalmente ao lado de uma linda mulher, uma verdadeira gueixa perdida no tempo. A cena é comum se eles não tivessem suas gargantas cortadas e se o sangue não jorrasse e banhasse metade da sala, a tornando um pedaço do inferno de Dante….

14:20 hrs _ “Nossa que calor insuportável, né pai?”, diz um garoto ao entrar no corredor. Ele apressou seus passos e continuava a dizer, “…não adianta se esconder não, você prometeu que iríamos ensaiar hoje”. Aquele chão de taco rangendo me tirando do sério…ao adentrar a sala e se deparar com a cena macabra, o menino fica estático. Sua alma transparente através de seus olhos arregalados e assustados. A criança estava vestida de uma roupa real européia , pronta para ensaiar sua primeira peça na nova escola…Shakespeare.

14:23 hrs _ O calor aumenta sem piedade, e dentro da casa a pobre criança vêm chorando em minha direção e me pedindo para “consertar” seu pai. Agora ele mal poderia ser visto, pois o sangue fizera o favor de encobrir seu rosto, uma tentativa da natureza de tingir a cena. Suas lágrimas, um oasis sagrado dentro do local.

14:30 hrs _ Me aproximando dos corpos, o homem aparentava ser um distinto, já a mulher ao seu lado se mostrava sedenta de amor, com um olhar doce, mesmo tendo sua garganta cortada tão friamente.

14:35 hrs _ Droga, não consigo pensar com esse maldito silêncio que não me dá trégua…estava tudo tão calmo…Quando chego perto do rosto dos dois, percebo um sorriso de agradecimento nos seus lábios suculentos, um pequeno alívio.

14:50 hrs _ Finalmente a policia chega, me perguntam sobre o cadáver, me espancam apenas por portar uma faca. Segundo eles, a arma que meu irmão usava para ensaiar com seu pai, agora morto, a mesma faca que aquela mulher fizera as cicatrizes em meu irmão. Marcas essas que agora eram abençoadas pelo choro de uma criança infeliz que nunca tivera a chance de viver como humano…nas sombras de suas imperfeições.

15: 00 hrs _ O Policial que me levava deixou sua mão afrouxar e consegui me livrar. Desferi um golpe fatal em meu coração, um corte forte e certeiro. As árvores balançavam com o vento, sem me entregarem uma folha para cobrir o rosto. O silêncio se completa, me acalmei mesmo com a tentativa de reanimação dos policiais…meu sangue se juntará aos porcos pais do menino. Meu espírito ao sofria um baque de arrependimento e satisfação…nem bruxas puderiam prever o final dessa peça sem ensaio.

15: 01 hrs _ Horário de minha morte, 19 anos de idade. Sobrevivente, fugitivo de uma penitenciária. Alimentado todo dia por um menino jogado as traças e que mesmo depois de uma sessão diária de humanidade subversiva, sorria pra mim ao trazer metade do seu prato sem se preocupar com a sua própria fome. Finalmente tinha encontrado Manson, Jesus, Ulysses… com um crime sagrado fecho a minha participação,  insensata ou humana?

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setembro 14, 2011

    Abril Cruel

 

Sou um homem bem sucedido…sou moderno. Nascido em bairro de classe média, desde garoto eu já anunciava o meu desejo para vencer na vida. Ajustei meu tempo conforme as necessidades para uma boa vida. Logo, o mundo para mim era um passeio, investimentos certeiros em formações, conforto, ótimos empregos, amores de meninas perdidas…eu passava rápido por tudo colecionando lembranças de esquecimentos. Você sabe, do alto não se olha para baixo por dois motivos: a vertigem e a verdade. Todavia, sem delongas, vamos a divertida história da minha infelicidade, o que interessa.

Sou um engenheiro formado com todas as odes possíveis, notas altas, grande fama, charmosíssimo, aliás, deveria ter meu rosto estampado em um capa de livro de auto ajuda. Enfim, tinha acabado de publicar um estudo acadêmico que  me colocou em grande disputa no mercado de trabalho. Esse destaque unido a minha competência e sociabilidade no meu atual emprego fez com que a maior empresa petrolífera do país me procurasse. Não era só uma grande empresa, seu teto salárial ultrapassava o imaginável, até mesmo para o bom salário que ganhava. Só o interesse já mostrava o quanto eu era poderoso.

Chegamos a entrevista. Como me era comum, já a tinha sob controle antes mesmo do seu início. Uma entrada confiante na sala do diretor inicia uma extasiante conversa de duas horas, ele me explica toda a política da empresa e confirma com documentos as exorbitantes vantagens de ser um dos seus funcionários. Na hora de fecharmos o contrato, ele me oferece um cargo maior do que esperava, e com todo aquele extase faço uma brincadeira com o campo de interesse salárial que preenchi, escrevendo “o suficiente para viver”. Ele sorriu, apertou-me as mãos e me indicou a porta gentilmente.

A partir desse dia, se iniciou o mês mais feliz de minha existência. E como em um sonho os 30 dias voaram. No dia 04 de abril, dia do pagamento, recebo as 7 da manhã uma mensagem do meu gerente dizendo que um motoboy iria me entregar o salário em casa. Estranhei e mantive esse semblante até o motoboy tocar a campainha, me entregar uma caixa enorme e partir sem dar explicação. Segundos depois, percebi que tinha acabado de receber uma cesta básica e 500 reais, que valeriam mais se gastasse conforme as indicações contidas em um bilhete. Na etiqueta a confirmação: salário de abril. Desesperado corro em direção ao lugar que tinha guardado a sete chaves o meu contrato. Um minuto de silêncio abismal seguido da conclusão, estava tudo alí junto a uma cláusula de rescisão exorbitante, meus próximos 10 anos de tristeza se postaram naquele momento. Coloco o documento debaixo do braço, dirijo rápido, piso no acelerador sem nem sentir o pé, caminho na empresa sem nem sentir o chão, respiro mal e vejo com dificuldade, percebo que aquela confiança nunca foi minha, era só uma companhia ingrata. Entro na sala do diretor e me encho de raiva. Ele estava calmo, parado me esperando ao lado do seu advogado. Vocifero por meia hora palavras já anunciadas. Em dois segundos de pausa para engolir a saliva, ele aproveita e em tom solene e sério me diz que o salário era “o suficiente para eu viver”. Começo a rir, rio, rio, rio…até ter um ataque do coração no meio da sala.

Hoje, dois anos depois do incidente, confesso que eu estava equivocado. A piada só existe para quem está disposto a rir dela. Mas eu aos poucos vou me ajeitando, atualmente divido o meu tempo em dois lugares, o trabalho e a psiquiatria, o trabalho pelo contrato e a psiquiatria pelo prazer. Ando meio sensível, o silêncio anda me tirando tudo. Meu relógio com pilhas gastas acusa que as horas estão à correr atrás dos minutos. Minha casa abandonada se mostra indiferente, todavia o jardim parece esperar o dia em que a piada completa o seu ciclo com o meu riso.

Agora são seis e vinte da manhã. O sol nasce iluminando a folha na qual escrevo esse texto dificultando a minha visão. Acho que vou aceitar o convite do vento e terminar essa crônica sem escrever…mas antes, peço que me perdoe por não ter me apresentado até agora. Acontece que agora eu não posso. Não sei se tenho nome, e esse que carrego pode me deixar em breve.  Peço para aguardar um tempo leitor, pelo menos até nós dois sairmos da psiquiatria.

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Fetiches como propósito

abril 23, 2011

Fetichismo pelo social ou cultural é a abertura “perfeita” e necessária pra meninos desengonçados, desprezivelmente rasos e molestados pelo sistema.  E meninas que já jogadas num mundo estéril,  comparadas à traças e postadas como princesas de um mundo sem monarquia  se colocam como ferramenta essencial de validação desse fetichismo.
Frases de outdoor e de publicidade pulam nos cartazes e nas cabeças, guiando um falso ideal de liberdade. Essa é a abertura necessária para experimentarem relações, emoções e o sexo. Mas cá entre nós,  sabemos que por mais que se relacionem nunca se relacionarão. Por mais que se emocionem nunca serão tocados, e por mais que transem nunca sentirão o sexo.

O mundo é feito pra eles! Diz o rapaz alterado…e alguém no fundo completa:  O mesmo pensamento de um inocente escravo em sua Saturnais.

Pensamentos para compreensão:

“escravos eloqüentes e folhetinescos do gosto democrático e suas ‘idéias modernas’; todos eles homens sem solidão, sem solidão própria, rapazes bonzinhos e desajeitados,  a quem não se pode negar coragem nem costumes respeitáveis, mas que são cativos e ridiculamente  superficiais, sobretudo em sua tendência básica de ver, nas formas da velha sociedade até agora existente, a causa de toda miséria e falência humana: com o que a verdade vem a ficar alegremente de cabeça para baixo! O que eles gostariam de perseguir com todas as forças é a universal felicidade do rebanho em prado verde, com segurança, ausência de perigo, bem-estar e felicidade  para todos; suas doutrinas e cantigas mais lembradas são ‘igualdade de direitos’ e ‘compaixão pelos que sofrem’- e o sofrimento mesmo é visto por eles como algo que se deve abolir. Nós, os avessos, que abrimos os olhos e a consciência para a questão de onde e de que modo, até hoje, a planta ‘homem’ cresceu mais vigorosamente às alturas, acreditamos que isso sempre ocorreu em condições opostas, que para isso a periculosidade  de sua situação tinha de crescer até o extremo, sua força de invenção e dissimulação (seu ‘espírito’) tinha de converter-se, sob prolongada pressão e coerção, em algo fino e temerário, sua vontade de vida tinha de ser exacerbada até se tornar absoluta vontade de poder – acreditamos que dureza, violência, escravidão, perigo nas ruas e no coração, ocultamento, estoicismo, arte da tentação e diabolismo de toda espécie, tudo o que há de mau, terrível, tirânico, tudo o que há de animal de rapina e de serpente no homem serve tão bem à elevação da espécie ‘homem’ quanto seu contrário – mas ainda não dissemos o bastante, ao dizer apenas isso, e de todo modo nos achamos, com nossa fala e nosso silêncio neste ponto, na outra extremidade de toda a moderna ideologia  e aspiração de rebanho: como seus antípodas, talvez?”

Nietzsche

“A forma mais baixa que podemos conceber do universo de homens é aquela a que Heidegger chamou do mundo do “man”, mundo em que nos deixamos aglomerar quando renunciamos a ser pessoas lúcidas e responsáveis; mundo da consciência sonolenta,dos instintos anônimos, das relações mundanas, de quotidiano, do conformismo social ou político,da mediocridade moral,da multidão,das massas anônimas,das organizações irresponsáveis. Mundo sem vitalidade e desolado,onde cada pessoa renunciou provisoriamente a sê-lo,para se transformar num qualquer,não interessa quem,de qualquer forma. O mundo do não constitui,nem um nós,nem um todo. Não está ligado a esta ou aquela forma social,antes é em todas elas uma maneira de ser. O primeiro ato duma vida pessoal é a tomada de consciência dessa vida anônima e a revolta contra a degradação que representa”.

Emmanuel Mounier

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Contos perdidos II

agosto 5, 2010

A maldição de  Prometeu

Acorrentado, imóvel, deitado, indiscreto, vivo…Dos olhos cansados  de Prometeu a vista acabara de perder o que a restava de azul. Aquele vento frio lhe dizia que era hora de tirar sua mente da montanha e distribuir sua dor pela paisagem. Seu olhar calmo daria medo até nos cérebros mais cruéis, agora ele era superior. Lançava sobre o horizonte um ponto de vista firme e comovente, o organismo trabalhava no seu máximo, quase à exaustão, usando o que lhe resta de energia para o abrir e fechar das pálpebras. O andar agora é um sonho muito distante.Tão perto e tão longe do céu, malditos justos, lhe tiraram a morte. Justa injustiça.

Prometeu avista uma ave preta em seu cansado campo de visão e em um surto de extravagância enérgica olha para baixo e sussura: “Vós viveis de tudo…menos de vida!” cuspindo para o nada em seguida. Não se sabe o que acontecera com sua saliva,  só se sabe que ela não lhe fez falta.

Sem som ou aviso,  lá vem ele…ele se aproxima com o seu brilhante terno preto e um olhar traiçoeiro, observa aquele homem tão vivo, mas já falecido, o encara como quem fará um questionamento impecável. Para por alguns segundos, e como um míssil ele aponta seu bico para o coração de Prometeu. Em um ato  raivoso come o seu coração com uma assustadora vontade. A cara suja de um vermelho forte não hesita em olhar o rosto do pobre defunto, e sua boca tremendo dispara: “Acabo de quebrar sua maldição, acabo de lhe dar vida…Em troca, finjo estar satisfeito em comer esta mesma comida. Eis a minha maldição!”

Uma insustentável revolta


Sentado em um local confortável, talhando sua própria existência, é tudo o que se faz ao entardecer desse dia. O ar puro que vai deixando seus pulmões oxigenados, os pensamentos  a todo vapor, fazendo assim toda a programação sair do ar. Os olhos não mais assistem o mundo do jeito que o cérebro quer,  só você e o sol, cara a cara. Quem vai cair primeiro? Quem vai se virar primeiro? Qual dos dois realmente é o centro?

As pessoas diminuem o ritmo, sentem os mesmos sintomas, mas só você sabe a causa. O astro rei é ofuscado e você logo se enche de prazer e grita aos quatro cantos que é o dono do mundo.Logo essa estrela indiscreta sai de cena, tudo o que queria para se encher de glória, porém não consegue ser mais o mesmo.A lua te suga com aquele olhar calmo, e incrívelmente você acata as ordens e cai em um sono profundo. Enquanto dorme, a lua comanda a noite sem grandes concorrentes, a não ser os noturnos que agora se divertem, mas que antes sucumbiram diante do sol.

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Contos perdidos – I

julho 26, 2010

Venho nesse post despejar alguns contos meus que redescobri em arquivo,  são contos e textos sem preocupação métrica ou de grande complexidade.

Esmo


Empunhei um lápis e fui me aventurar a escrever, admirei a imensidão branca do papel por alguns segundos e senti palavras sendo atiradas a todo instante.
Notei que minha mão se movia sozinha. Intimei imediatamente o controle do cérebro.
O papel estremecia e as palavras iam formando versos perfeitos como se tivessem sido preescritos.
A poesia prometida não se atrasa a terminar. Um ponto final se aproxima com precisão.
Sublime e chocante, fechando assim um mundo perfeito que perdera a sua razão logo no primeiro verso.
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Notas de um antigo subsolo alemão




Um bigode característico é visto ao longe, acompanhado de formas rússticamete combinatórias oriundas de um par de olhos travados, contendo uma íris petrificada. Ele nem se preocupou em cumprimentar Goebbels, passou sem ao menos trocar olhares, e logo os espectadores deduziam ao longe uma fala heróica para o personagem: “Por que perderia meu tempo com tal infortúnio?”. O que os terceiros não podiam perceber é que diante de sua visão severa  estava um dia especial, a Baviera brilhava em sua frente, os bunkers beiravam a calmaria, só se ouvia os gritos contido de dor dos judeus, contidos porque havia um certo receio de que a tortura fosse reconhecida pelo cérebro, não dava para ver os seus rostos, esse era um problema.Ao ouvirem , os pobre meninos de raça superior tomavam conta que não sabiam identificar a raça pela voz, e em poucos segundos os gritos de vermes judeus se transformavam em gritos de mães queridas, de pais cuidadosos, seus entes estavam sofrendo alí.O alívio só vinha quando achavam os corpos dos prisioneiros, suspeitavam que aí se escondia o real motivo para o escárnio pela exposição.

Um papel e uma caneta e lhe dê dez minutos, antes mesmo do prazo ele lhe entregará um conjunto de palavras capaz de inflamar uma nação.Entre ondas sonoras ele dispara um texto tão sombrio e inacreditável, que poucos hão discordar.Quem é este homem?Diziam aqueles que escutaram seu discurso pela primeira vez, e ele com calma deixava bem claro que aquela não seria a última vez, isso sem so menos alterar o tom.Através de aplauso que funcionam como “backing vocals” ele deixa mais um comício bem sucedido, com passadas firmes e convincentes pois nessa Alemanha não há porque reclamar nem ao menos agradecer, o “Hei Hitler” é dito a pleno pulmões nos quatro cantos de Berlim.

Mas como quase tudo surge em uma tarde seguida de um adjetivo ultrajante, era uma tarde extravagante.Um oficial perturba o sossego do chanceler, lhe traz um papel, uma carta…Ela é calmamente aberta e apreciada de uma forma quase artística de quem é tão esplendorosa caligrafia? No fundo ele sabia, mas uma introdução se faz necesária, mais uma cúmplice de suas palavras esbravejadas, pensava, porém ao se deparar com o nome “Leni Riefenstahl” sua irís se perde, suas lembranças se perdem, o chão é inútil, vive naquele instante uma noite calma assistindo ao magnífico filme “Der Heilige Berg”.Era ela! Sim, ela mesma…a dançarina que o conduziu pela tela à mais sublime fantasia reprimida. Sim, ela mesma…sim! Sim…droga. Era ela mesma.

Finalmente as lágrimas chegaram  aos seus olhos, mas por cautela da natureza infelizmente não caíram.Talvez estivessem aguardando uma dor maior.Todos sabiam que era inútil esconder, se sentia  ao longe, o líder chorava compulsivamente.Largou mão de esconder e se mostrou para as quatro paredes lacradas que o cercavam, muito mal por sinal. Leni naquele exato momento chorou também, achava ela que era por uma briga com seu namorado, mas ela também sabia, alí eram derramadas muito mais do que tristezas, alí eram derramadas almas, almas essas que se iludiam na dureza do sonho. As estrelas como testemunhas de uma promessa: “Eu a econtrarei, e ela terá uma certeza, a minha incerteza.”

No dia seguinte o céu viu tal homem olhar para o alto, pensar e pensar, virar para a bela loira ao seu lado e tecer comentários sobre música e cinema com um olhar inseguro.Triste noite, mil vezes humilhado por suas lágrimas, ultraje de tamanha dimensão só cabia ser executado com a calma da lua, um ar leve e puro que chega aos pulmões sem avisar, e um rosto emocionado de uma mulher encantadora, que escancara a sua beleza de uma forma que ela se mantinha intacta alí, em algum lugar, não do corpor, não da alma, não do local, se mantinha alí, impossível de tocar, mas com sorte se respirava um pouco dessa atmosfera própria.

O vermelho que se espalha pelos campos de batalha nada mais é do que um prenúncio do desastre.O inferno nunca pareceu tão frio, congelava até as armas e a alma dos soldados representavam alvos fáceis.Homens vestindo um uniforme vermelho são tirados do caminho como insetos, mas eles chegam de todos os lugares, acabam com a estratégia, com suas armas precisas e olhar de heróis , eles são imbatíveis, pelo menos hoje.Não há o que negar, Stalingrado é deles, agora a única coisa que se pode levar com um poucoco de sorte é um bom resfriado e uma dor de cabeça.Já é tarde, porém  o Führer não consegue dividir sua utopia, ele quer pelo menos mais algumas noites, mesmo que seja naquele gelo.A sua enfurecida insistência dá finalmente os louros aos homens livres de boina.Era o fim, o tão pouco esperado fim, agora o Führer não responde mais as chamadas de emergência e nem se consegue mais ouvi-lo no rádio, todavia seus gritos esquizofrênicos ainda são escutados por muitos, mas agora eles são compreendidos melhor…

Em 8 de setembro de 2003, realmente se enterra a alma desse homem.Uma mulher nessa data é encontrada, era uma loira, com seus 101 anos,  ela não se mexia, não respirava, não sentia, não pensava, estava morta .Morrera dormindo, profundamente arrependida, provavelmente antes de seu último sono ela se questionava: a queda aconteceu em Stalingrado ou naquela noite?


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Uma análise contemporânea de “Admirável Gado Novo”

dezembro 3, 2009

Revivendo o blog do nada, venho fazer um post interessante para quem gosta de interpretações um tanto quanto filosóficas.Abaixo mostro uma análise diferente, não digo minha porque muitas pessoas devem ter isso em mente também, da música Admirável Gado Novo de um dos meus artistas favoritos dentro do cenário musical brasileiro, Zé Ramalho.


Obs: Os termos marcados com asterisco(*) são explicados no final do post.


Admirável Gado Novo


Composição: Zé Ramalho


No título existe uma referencia clara ao livro “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Nessa fábula, Huxley trabalha uma visão futurista de enorme contraste com a sua época, 1931, caracterizada pela falta de ordem.A obra retrata um mundo extremamente normativo, de ordem em demasia, com sociedades divididas em castas e onde o social é substituído pela atuação da ciência.


Na troca de “mundo” por “gado” acontece não só uma redução social, mas faz o foco cair sobre nós humanos modernos através de uma metáfora Nietzschiana, e também exprime outro uso da frase que é assim, tomado pelo sentido literal.É um “gado novo”, um “gado” que ainda não participa do jogo e por consequência , assiste a tudo da form mais isenta possível.

Oooooooooh! Oooi!

Vocês que fazem parte dessa massa

Que passa nos projetos do futuro

É duro tanto ter que caminhar

E dar muito mais do que receber…


Logo no começo há uma retomada das idéias dissecadas do título.”Vocês” é usado para distanciar o narrador da “massa”, palavra essa que toma o sentido de rebanho.

“projetos do futuro” remonta o ambiente futurista do livro “Admirável mundo novo”.

A frase “dar muito mais do que receber” pode ser interpretada como o famoso problema social do produtivismo, sistema que se inaugura na sociedade mercantilista.


E ter que demonstrar sua coragem

À margem do que possa parecer

E ver que toda essa engrenagem

Já sente a ferrugem lhe comer…


Aqui é possível notar uma afirmação, quase um manifesto, alertando sobre a autodestruição do sistema social-político em que vivemos.


Êeeeeh! Oh! Oh!

Vida de gado

Povo marcado

Êh!

Povo feliz!…(2x)


Essa felicidade citada no refrão pode ser facilmente relacionada com o conceito de felicidade moderna(felicidade do último homem) de Nietzsche*.


Lá fora faz um tempo confortável

A vigilância cuida do normal

Os automóveis ouvem a notícia

Os homens a publicam no jornal…


-Na primeira frase é  a alienação é tomada de forma sarcástica mudando o foco para um mundo em que o próprio narrador não se inclui mais.

-Quem conhece as teses de Foucault logo se identificará com a segunda frase e a ligará com a “Sociedade Disciplinar” *.Uma sociedade que castra as subjetivações e que controla através de poderes* de normatização da sociedade.

-As últimas duas frases invertem o modo de visão humanista tratando o homem como mero propagador objetivo do que se passa em um mundo mecanizado.


E correm através da madrugada

A única velhice que chegou

Demoram-se na beira da estrada

E passam a contar o que sobrou…


Nesse verso a palavra “velhice” pode ser tomada como amadurecimento, ou seja, o único e pseudo amadurecimento que chegou.


Êeeeeh! Oh! Oh!

Vida de gado

Povo marcado

Êh!

Povo feliz!…(2x)


Oooooooooh! Oh! Oh!

O povo foge da ignorância

Apesar de viver tão perto dela

E sonham com melhores tempos idos

Contemplam essa vida numa cela…


Uma critica à segregação.A ignorância está mais perto do que se pensa, e o que se costuma se chamar de “elite” é apenas um grupo que foge da ignorância deixando rastros nítidos.

Nas últimas duas frases há uma explicitação do conformismo tal qual Álvaro Campos(Fernando Pessoa) na consagrada poesia “A Tabacaria” que tenta levar o passado na algibreira da calça, vivendo assim de uma ilusão.


Esperam nova possibilidade

De verem esse mundo se acabar

A Arca de Noé, o dirigível

Não voam nem se pode flutuar

Não voam nem se pode flutuar

Não voam nem se pode flutuar…


Uma crítica clara à religião e a dependência causada por ela.Sem catástrofe, sem a inundação a arca não se move, além de não existir alguém capaz de dirigi-la, dependemos de Noé.Dependemos de um avatar, e isso se mostra em todas as religiões.


Êeeeeh! Oh! Oh!

Vida de gado

Povo marcado

Êh!

Povo feliz!…(2x)

Ooooooooooooooooh!


“Sociedade disciplinar” —-Foucault mostra como a sociedade é normativa e como ela padroniza os cidadãos(sem excessão) violentamente através de todos os tipos de poderes, principalmente o do saber.

Poderes em Foucaut —-No contexto o filósofo francês não só trabalha com poderes historicamente e economicamente absolutos como grandes corporações, religiões, sistemas sociais.Demonstra que poderes estão presentes em qualquer tipo de relação seja ela uma mera conversa ou um regime político.

Alegria moderna em Nietzsche —- Nit ironiza o conceito moderno de felicidade mostrando que ele é apenas uma fuga da vida, um jeito parcial de se viver fugindo da dor e dos aspectos tidos moralmente como “negativos”.A real felicidade só é encontrada quando se aceita a vida integralmente, com todos os seus prazeres e toda as suas dores e sofrimentos.